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Missão da Força Aérea do Brasil leva paz ao Haiti

Kaiser David Konrad .

ImagemA República do Haiti, nação soberana no centro do continente americano, é um país das Caraíbas que ocupa o terço ocidental da ilha Hispaniola. Em toda a sua história, graves crises políticas, no decorrer dos anos, levaram o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas a aprovar o envio da Força Multinacional Interina, no ano de 2004, liderada pelo Brasil.

Mais tarde, no mesmo ano, por considerar a situação como ameaça para a paz internacional, o mesmo Conselho estabeleceu a Missão de Estabilização das Nações Unidas para o Haiti (MINUSTAH), também liderada pelo Brasil, e que agora conta com membros da Força Aérea Brasileira em seu contingente de soldados da paz.

Com o toque da alvorada, o corneteiro nos acorda para mais um dia de trabalho. Mal amanheceu em Porto Príncipe, mas já está abafado e úmido, sinal de que a noite que passou foi chuvosa. Dezenas de militares se levantam de seus camarotes. Alguns vão para a academia de ginástica, outros iniciam sua corrida e aqueles que estão de serviço se preparam para sua jornada diária: garantir um clima seguro e estável à população do Haiti. Estamos no Campo Charlie, a Base do Primeiro Batalhão Brasileiro de Força de Paz, conhecido como BRABATT 1, que faz parte da MINUSTAH.

O jovem tenente com uniforme de camuflagem verde-azul destoa dos demais militares que estão no padrão verde-oliva do Exército Brasileiro, mas sua função não se diferencia das quais todos estão destinados. Inserido na Terceira Companhia do BRABATT 1 está o Pelotão de Infantaria da Aeronáutica.

Comandado pelo 1º Tenente Marcos Vinícius Oliveira Pereira, o efetivo da Força Aérea Brasileira (FAB) é formado por quatro sargentos, seis cabos e 16 soldados, todos pertencentes ao Batalhão de Infantaria da Aeronáutica Especial da Base Aérea de Recife, Pernambuco. Desde que foi criada como Infantaria de Guarda, em 1941, e posteriormente designada como Infantaria da Aeronáutica, esta é sua primeira participação como tropa numa missão de paz.

Antes de ir para o Haiti o efetivo passou por seis meses de instrução tática, teórica e adaptação para utilização do fuzil FAL 7,62mm e outros seis meses embutido na tropa do Exército Brasileiro, parte do Décimo Quarto Contingente, o que contabilizou um ano de preparação.

A Força Aérea Brasileira está no Haiti com a sua infantaria atendendo à Lei Complementar n° 97, atualizada em 26 de agosto de 2010, que determina como uma das formas de emprego das Forças Armadas brasileiras as Operações de Paz.

As missões desenvolvidas nestas operações, como check-points, static-points, patrulhas a pé e motorizadas, além de escolta de comboios são missões que também são realizadas nas operações de defesa de superfície de bases aéreas, uma das especialidades da Infantaria da Aeronáutica.

Montados sobre viaturas Land Rover Defender, os integrantes deste efetivo da FAB no Haiti deixam a base para mais uma missão de rotina na capital haitiana, seguindo um circuito operacional que é realizado Imagemtodos os dias por seus 27 militares. O comboio em deslocamento cruza as principais ruas próximas às instalações da ONU, como o Campo Delta e a Base Logística, e segue por caóticos oitos quilômetros até o Campo de Deslocados São Luiz Gonzaga.

Devido ao terremoto que destruiu o país em 12 de janeiro de 2010, matando mais de 230.000 pessoas, uma em cada três residências foi destruída, o que gerou uma crise humanitária de grandes proporções, pois cerca de um terço da população do país não tinha mais para aonde ir.

Para tentar amenizar a situação destas pessoas, organizações humanitárias internacionais apoiaram a criação das IDPs (Pessoas Deslocadas Internamente, por sua sigla em inglês), que são áreas onde famílias inteiras vivem alojadas em barracas. São em locais como estes que a presença das Forças de Paz da ONU se faz mais importante no combate à criminalidade, ao prevenir pequenos delitos, agressões, furtos, estupros e o tráfico de entorpecentes.

A presença ostensiva das tropas nestes locais mostra à população haitiana que ela não foi abandonada, e que as Forças de Paz estão ali para garantir um ambiente seguro e estável, que possibilite a continuidade das tarefas de reconstrução do país e da própria dignidade do seu povo. O IDP São Luis Gonzaga aloja mais de 2.700 famílias, e é um dos vários instalados dentro da área de responsabilidade operacional da Infantaria da FAB, e que necessitam ser patrulhados durante o dia e a noite. Equipados com espingardas calibre 12 municiadas com balas de borracha e granadas de luz e som para operações antidistúrbio, a tropa adentra o IDP com cautela.

A simples presença dos militares no local provoca nos haitianos uma sensação de tranquilidade, que os faz recebê-los com simpatia e respeito. Constantemente são realizados nestes campos operações de distribuição de alimentos e água potável.

No patrulhamento urbano não se pode prever o que vai aparecer 30 metros à sua frente. A cada esquina surge um cenário diferente. Crianças brincam, mulheres lavam a roupa ou pessoas dormem no chão. Por isso, o militar precisa estar treinado e ter domínio total do seu armamento. A ausência de posições defensivas e seguras de tiro, a desvantagem tática da tropa e o grande número de civis na área tornam as operações neste tipo de ambiente difíceis, tensas e exaustivas.

A Infantaria da Aeronáutica percorre mais de 18 quilômetros em patrulha a cada saída que faz da base brasileira. Uma tarefa exaustiva e compensadora que pode ser vista na expressão de cada militar ao encontrar uma criança, no sentimento de solidariedade e amizade que une os povos, e no orgulho que cada soldado tem ao ostentar em sua farda o nome da Força Aérea Brasileira em sua primeira missão de paz sob a égide das Nações Unidas.

Kaiser David Konrad é um jornalista brasileiro especializado em assuntos de segurança nacional.

Entrevista com o Brigadeiro de Infantaria Rodolfo Freire de Rezende

ImagemComandante do Quadro de Infantaria da Força Aérea Brasileira, que compõe uma das companhias subordinadas ao contingente brasileiro da MINUSTAH e quem realiza todo o planejamento operacional e logístico para o emprego real na operação.

Kaiser David Konrad: Qual a importância em ter-se uma tropa da Força Aérea Brasileira no Haiti?

Brigadeiro de Infanteria Rodolfo Freire de Rezende: Para a Força Aérea Brasileira a participação de um pelotão de infantaria, junto ao contingente brasileiro, revela-se sob dois importantes aspectos.

O primeiro é a possibilidade de operar sob a égide de organismos internacionais e de forma integrada às forças da Marinha do Brasil e do Exército Brasileiro, contribuindo para a elevação dos níveis de capacitação, motivação e profissionalismo de nossa tropa. O segundo é a de inserir no histórico da FAB o sentimento de orgulho de nossos militares em poder auxiliar uma nação co-irmã, através das ações de uma tropa altamente preparada para atuar no contexto de um território que está submetido a condições subumanas.


Konrad: A experiência em uma operação como essa será importante para o treinamento de tropas da FAB?

Brig Rodolfo: Com certeza. O emprego deste tipo de atividade requer o constante treinamento em ações de polícia e emprego quando em patrulhas, quer a pé ou de forma motorizada. Portanto, a experiência alcançada nas atividades junto à MINUSTAH fortalecerá a capacidade dos militares em difundir novas técnicas e táticas de emprego, observadas em outras nações cujos contingentes também são parte da MINUSTAH.

Konrad: Já é possível obter algum aprendizado dessa missão?

Brig Rodolfo: Com o retorno do primeiro pelotão do Haiti, já pudemos avaliar de uma maneira mais completa os benefícios advindos do treinamento e do emprego da tropa em situação real de conflito. No preparo para o embarque do outro pelotão que enviamos em agosto, já utilizamos novas táticas de emprego em ações de GLO [Operações de Garantia da Lei e da Ordem] como são chamadas as operações das Forças Armadas em ações urbanas ou de segurança pública, tais como na condução de patrulhas motorizadas em áreas urbanas, emprego de armamento não letal em situações de enfrentamento envolvendo turbas e, também, na padronização de regras de engajamento das nossas tropas junto à população haitiana.

Fonte: REVISTA DIÁLOGO / NOTIMP









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