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Saiba como a FAB atua no transporte de órgãos para transplante


Saiba como a FAB atua no transporte de órgãos para transplante ...  


Agência Força Aérea, por Ten Gabrielli Dala Vechia ...  


Era 19 de junho e o Capitão Vitor Freitas, piloto do Esquadrão Guará, de Brasília (DF), passeava com a família no shopping. Uma ligação, porém, mudou os planos do militar para aquela noite: em duas horas, a contar daquele momento, ele precisaria estar decolando a aeronave Learjet, da Força Aérea Brasileira, rumo à Uberlândia, em Minas Gerais. A missão era buscar um novo coração para Ana Júlia Aleixo, uma garotinha de oito anos, à época, que estava internada no Instituto de Cardiologia do Distrito Federal, e precisava de um transplante para continuar vivendo. “É impossível eu não me colocar no lugar dessa família, pois tenho duas filhas pequenas”, conta o piloto.

Ana Júlia ganhou uma nova vida treze dias após a publicação de um decreto presidencial que regulamentou esse tipo de missão no âmbito da Aeronáutica. Até dia 6 de junho, quando o então presidente em exercício Michel Temer assinou o documento, não existiam regras específicas para esse tipo de missão. “Não havia uma orientação sobre como proceder e os pedidos de transporte de órgãos contavam com o engajamento voluntário dos comandantes, além da disponibilidade de meios. Por isso, nem sempre era possível atender”, explica o Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro Nivaldo Luiz Rossato.

Agora, com o decreto 8.783, a Força Aérea Brasileira mantém uma aeronave à disposição para transporte de órgãos na capital federal, mas também faz uso de outros aviões lotados por todo o País, a depender de qual o trajeto a ser atendido. Nesse período, dos sete Esquadrões de Transporte Aéreo (ETA) que a Força possui, espalhados por todas as regiões do Brasil, cinco já foram acionados para esse tipo de missão. Nos quatro primeiros meses após a assinatura do decreto, a média foi de dois órgãos transportados a cada três dias.
A mãe de Ana Júlia, Maria Aparecida Aleixo, lembra bem de quando soube da notícia que a FAB intensificaria o apoio aos transportes de órgãos. Ela, que trabalhava como diarista para complementar a renda do marido, vendedor de água e picolés na Esplanada dos Ministérios, precisou deixar de lado a tarefa para se dedicar aos cuidados da filha. “Estávamos eu e ela no hospital, pois a Ana Júlia estava internada desde abril, e vi na televisão a notícia de que a Força Aérea iria fazer esse tipo de transporte. Eu falei ‘Júlia, olha aí o avião que vai trazer seu coração’. Aquilo nos acendeu uma nova esperança”, afirma Maria Aparecida.

O diagnóstico da menina era de miocardia dilatada, quando o músculo do coração cresce demasiadamente e tem dificuldade em bombear o sangue. Só o transplante resolveria o problema, com o agravante de que é preciso que o doador tenha estrutura corporal semelhante ao do receptor. Portanto, no caso de crianças, encontrar órgãos compatíveis é mais difícil. “No hospital, ficamos sabendo de casos de crianças que faleceram à espera de transplante e de órgãos que não chegavam por falta de transporte. Eu estava vendo minha filha morrer. O que sinto pela Força Aérea Brasileira é uma gratidão tão grande que nem sei explicar”, afirma Maria Aparecida.

Parceria com o Ministério da Saúde - A Força Aérea Brasileira e o Ministério da Saúde firmaram uma parceria inédita para o transporte de órgãos. Em agosto, foi assinado um Termo de Execução Descentralizada (TED) entre essas duas instituições, por intermédio do Ministério da Defesa, no valor de R$ 5 milhões.

Segundo o Ministério da Saúde, o primeiro acordo de cooperação com companhias aéreas no intuito de viabilizar a logística de transporte de órgãos aconteceu em 2001, e a FAB participa desde então. Para o ministério, a parceria com a Aeronáutica tem sido útil preferencialmente para transporte de órgãos em que a isquemia é menor, ou seja, quando há pouco tempo entre a retirada do doador e transplante no receptor. É o caso do coração e do pulmão, que ‘sobrevivem’ por apenas 4 e 6 horas, respectivamente. A aeronave que buscou o coração para Ana Júlia, o Learjet, chega a uma velocidade de 810km/h, sendo que o voo até Uberlândia durou 40 minutos.

Outro benefício da parceria com a Força Aérea, conforme explica o Ministério da Saúde, é o fato de as aeronaves possuírem condições para pousar em pistas e aeroportos menores, o que possibilita maior mobilidade fora das capitais.

“Houve um significativo aumento no transporte de órgãos ou tecidos realizados pela FAB. Desde a assinatura do decreto até o início de outubro, a Força Aérea Brasileira já transportou 89 órgãos e tecidos. Até então, em 2016, apenas cinco órgãos haviam sido transportados”, compara o Ministro da Saúde, Ricardo Barros.
 
Logística complexa -  Coordenadora da unidade de transplantes do Instituto de Cardiologia do Distrito Federal - hospital responsável pelo caso de Ana Júlia – a enfermeira Camila Scatolin explica que a logística envolvida em um transplante é muito complexa e que detalhes podem inviabilizá-lo.

Ela conta que cada órgão possui um Tempo de Isquemia Fria (TIF), ou seja, o período que ele pode ficar sem circulação sanguínea. O coração é o órgão de menor TIF, já os rins podem ficar até 24 horas sem serem irrigados. O transporte precisa ocorrer em uma caixa térmica que mantenha temperaturas entre 2 a 8°C. Se for abaixo do previsto, o órgão pode congelar, inviabilizando o transplante. Impactos mecânicos também podem danificar o órgão.

Segundo a enfermeira, ainda há, nesse transporte, a logística envolvendo as equipes de saúde. Na maioria dos casos, quem retira o órgão são os próprios profissionais que vão transplantá-lo. Quando a equipe médica é de uma cidade diferente de onde decola a aeronave, é preciso fazer escala para buscá-la. Se o paciente estiver em Goiânia (GO), por exemplo, e a aeronave decolar de Brasília, é necessário um pouso na capital goiana para embarcar os profissionais de saúde.

“Essa parceria com a Força Aérea Brasileira é extremamente positiva, pois reflete diretamente no número de transplantes realizados aqui, em especial quando tratamos de transplante de coração. Por ter um TIF curto, não é possível nos utilizarmos dos acordos com as companhias aéreas comerciais”, explica Camila.

Ela conta que, em 2011, o Instituto de Cardiologia do Distrito Federal realizou apenas nove transplantes, pois o apoio aéreo era mais restrito e só foi possível acesso a doadores locais. Já em 2012, com a aproximação da Força Aérea Brasileira, foi possível dobrar o número de transplantes: foram nove doadores locais e outros nove de outros estados brasileiros (SP, RJ, MS e RS). “Isso favorece em especial os receptores pediátricos, que têm escassez de doadores, como foi o caso da Ana Júlia”, avalia a enfermeira.
 
Acionamento - Todo o processo de transporte de órgãos é iniciado quando a Central Nacional de Transplantes (CNT) é informada por alguma central estadual sobre a existência de órgão e tecido em condições clínicas para o transplante. A CNT aciona as companhias aéreas para verificar a disponibilidade logística. Se houver voo compatível, os aviões comerciais recebem o órgão e levam ao destino. Quando não há, a Central contata a FAB, que desloca um ou mais aviões para a captação e transporte do órgão.

Os pedidos chegam à Força Aérea por meio de uma estrutura montada no Comando-Geral de Operações Aéreas (COMGAR), em Brasília. De lá, avalia-se qual esquadrão deve ser acionado. A partir de então, é ativada uma cadeia de eventos até a decolagem da aeronave. É preciso checar as condições de pouso no aeroporto de destino, acionar a tripulação e avisar ao controle de tráfego aéreo que se trata de um transporte de órgãos – tanto no plano de voo, quanto na fonia – pois isso confere prioridade ao avião para procedimentos de pouso e decolagem.

“Conseguirmos cumprir missões desse tipo, que têm se tornado rotina aqui no Esquadrão Guará, é muito gratificante. Fruto do trabalho de muita gente, que fica nos bastidores, permitindo que tudo ocorra em segurança e sem incidentes. Não é só o piloto, mas o mecânico, o ajudante, toda a equipe”, explica o Capitão Freitas.

Missões subsidiárias - Hoje, a missão da Força Aérea Brasileira é manter a soberania o espaço aéreo brasileiro, com vistas à defesa da Pátria. Outras atividades, desenvolvidas em paralelo, como apoio a comunidades indígenas e o transporte de órgãos são consideradas subsidiárias.

A ideia do Comandante da Aeronáutica é fortalecer esse tipo de missão, que acabou perdendo espaço nos últimos anos. Ele explica que metade da frota atual da FAB e dos pilotos é de transporte e que é função da instituição apoiar outros órgãos governamentais, como vem acontecendo a partir do decreto e do fortalecimento da parceria com o Ministério da Saúde.

“O documento da presidência foi ótimo para nós, por dar clareza sobre as nossas responsabilidades, e os recursos do Ministério da Saúde nos deram condições de trabalho. Esse tipo de parceria abre novos caminhos e dá novas perspectivas para que a Força Aérea esteja cada dia mais próxima dos cidadãos”, afirma o Tenente-Brigadeiro Rossato.


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