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A tragédia evitada por segundos








Marcelo Ambrosio

RIO - No dia 16 de junho, passageiros do voo 3717, procedente de Brasília, tomaram um enorme susto quando chegavam a São Paulo. Já em procedimento de pouso, na terminal do Aeroporto de Congonhas, o jato subitamente deu uma violenta guinada, tão forte que arremessou uma das comissárias – que fazia os preparativos normais, como checar cintos de segurança – sobre uma fileira de assentos. No interfone, o comandante explicou que tinha sido forçado a fazer uma manobra evasiva, já que o radar acusou outra aeronave próxima.

O que ninguém soube, até hoje, é que o Airbus A320 e um turboélice Bandeirante estiveram o mais perto de se chocarem no ar e repetirem a tragédia do voo 1907, abatido por um Legacy da empresa americana Excel Aire que voava sem transponder e na rota errada sobre Mato Grosso. No momento em que o alarme no cockpit soou em Resolution Advisory – colisão iminente – o comandante do Airbus teve em torno de 15 segundos para evitar o desastre. Pior: segundo uma fonte ligada à area de segurança de voo, pelo menos 23 incidentes desse tipo – mas não com tamanha gravidade – foram registrados no espaço aéreo de São Paulo de janeiro a junho.

O episódio está sob investigação pelo Cenipa, órgão da Aeronáutica encarregado de elucidar acidentes ou, como nesse caso, incidentes de extrema gravidade. No site da FAB, um despacho lacônico de duas linhas confirma o ocorrido e informa que os dados de ambos os voos estão sendo avaliados para que se apurem responsabilidades.

Saturação

Quem conhece um mínimo de aviação estranha que um acontecimento com tal gravidade esteja sendo tratado de forma muito reservada, sobretudo por por ter ocorrido em um espaço aéreo criticamente saturado, no qual todos os movimentos são acompanhados, pelo menos em tese, de forma muito rigorosa.

– Houve um erro grave, e que mostra que a situação do espaço aéreo de São Paulo é muito preocupante. Como toda a área é monitorada por vetoração radar, jamais uma aeronave poderia entrar em rota de colisão com outra ali sem que alguém estivesse acompanhando de perto – afirma um experiente comandante, com muitas horas de voo.

Para ele, a militarização excessiva do controle de tráfego aéreo – que na maioria dos países é uma atribuição de civis – faz com que problemas com a doutrina de gerenciamento acabem longe do conhecimento da sociedade.

De acordo com fontes de empresas e ligadas à aviação comercial, o quase choque ocorreu principalmente pelo fato de o Bandeirante, que havia decolado de Guarulhos, ter sido orientado a fazer uma curva à direita e, por razões que ainda são desconhecidas, ter feito a operação muito mais aberta que o necessário. Há, ali, duas rotas, Congonhas 1 e Congonhas 2, e por conta disso, aparentemente o turboélice entrou em uma delas sem se dar conta.

– Girar à direita na saída é comum, o que não foi comum foi aquele avião estar naquela posição depois de ter feito a manobra – completa o piloto.

Como ambas as aeronaves estavam com o transponder (radar de localização) e o TCAS (Traffic Collision Avoidance System) operando perfeitamente, o sistema dos dois lados detectou a aproximação perigosa.

– O TCAS do TAM deu o alarme quando a separação vertical já era de 600 pés, algo em torno de 200 metros. Isso é crítico – acrescenta o piloto.

Como um avião descia, e o outro estava subindo, a colisão, se não fosse evitada, seria certa.

Incidente ocorreu a 18 km de Congonhas

A manobra brusca realizada no cockpit do voo 3717 foi, na verdade, um ato de perícia. Isso porque o TCAS possui níveis de alerta variados e um, o máximo, que é o Resolution Advisory (RA).

– Esta é a última instância para o piloto agir, confirma outro comandante. Neste caso, o alarme não foi precedido de qualquer outro aviso prévio, e assim, o comandante, que acompanhava os procedimentos de aproximação executados pelo computador, foi forçado a assumir o manche e manobrar em um curtíssimo espaço de tempo. Mérito do treinamento em simulador, no qual esse tipo de rotina é frequente.

Se tivesse acontecido, o choque entre as duas aeronaves causaria quase tantas mortes quanto a do voo 1907, já que o Airbus levava 177 passageiros e seis tripulantes e ainda havia os que estavam no Bandeirante (cuja capacidade é de 19 mais a tripulação de três pessoas).

– O desastre teria ocorrido, pelos cálculos que fizemos, a mais ou menos 18 quilômetros da cabeceira Romeu 17 (R17), na qual a parte final é feita sobre as Marginais Pinheiros e Tietê e sobre o Shopping Ibirapuera – afirma o piloto, confirmando que o assunto virou tema de conversas entre os profissionais do cockpit.

Fonte: JORNAL DO BRASIL, via NOTIMP




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