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"A solução não é privatizar aeroportos"








O empresário David Neeleman, 50 anos, o comandante da Azul Linhas Aéreas, uma das empresas aéreas que mais crescem no setor, não economiza palavras quando indagado sobre a situação da infraestrutura aeroportuária no País. Pelo contrário.

Ele vai direto ao ponto e toca o dedo na ferida: diz que falta agilidade nas tomadas de decisões na Infraero e defende um modelo misto de administração dos aeroportos como o da Petrobras – que tem o governo como acionista, mas mantém uma gestão profissionalizada. Neeleman fala com propriedade. Ele fez história nos Estados Unidos, onde fundou a Jet Blue – sinônimo de companhia low cost. Em 2008, contudo, resgatou suas origens ao fundar a Azul Linhas Aéreas, a quarta maior empresa do setor no País. Ele costuma dizer que, se para virar especialista em algo é preciso ter dez mil horas de prática, ele já virou um “mestre”. “Devo ter umas 50 mil horas de prática”, brinca. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da entrevista concedida à DINHEIRO:

DINHEIRO – Os gargalos em infraestrutura nos aeroportos preocupam o sr.?

David NEELEMAN – Minha preocupação é que esses gargalos cresçam mais dentro de três a cinco anos. Já temos problemas, mas isso acontece em três aeroportos. A questão é que vamos começar a ter dificuldades em outros aeroportos que hoje funcionam bem. Então estamos conversando muito com a Infraero e com o governo, porque eles precisam de maior agilidade. Precisam ficar livres das regras da Lei 8.666 (a Lei de Licitações que estabelece normas para a contratação de obras e serviços pelo setor público). Tem muita gente que quer privatizar os aeroportos. Privatizar não é a solução. Podemos fazer de outro jeito. Você pode criar um novo modelo sem privatizar. Porque, se decidir privatizar tudo, é um processo que vai levar de dois a três anos. Não temos dois ou três anos. Não temos mais tempo.

DINHEIRO – Que modelo o sr. defende?

NEELEMAN – A melhor maneira é criar um modelo para a Infraero seguindo aquele criado na Petrobras. Ou seja, administrada por profissionais de mercado. Mas seria uma empresa fechada, sem abertura de capital, porque não se trata de cortar custos e dar resultados para acionistas apenas. É uma empresa que presta serviços aos brasileiros, portanto a mentalidade não pode ser de uma empresa gerida por acionistas investidores. Seria uma Infraero que pode vender bonds aos investidores no mercado, por exemplo, para se capitalizar. No modelo que eu imagino, a Infraero se torna uma empresa livre das regras do governo e passa a ter um Conselho de Administração independente com homens e mulheres de negócios nas cadeiras. Ou seja, formado por pessoas que não precisam de dinheiro, mas que estejam interessadas em prestar um serviço ao País. Seria um misto de modelo, uma espécie de Vale e Petrobras.

DINHEIRO – A Infraero não é bem administrada?

NEELEMAN – O presidente da Infraero [Murilo Marques Barboza] é muito bom e tem grande vontade para fazer as coisas, mas ele tem que seguir os processos do governo. Acredito que tem muita gente interessada em mudar o modelo. Alguns dizem: ‘Não vamos fazer isso agora, tem eleição.’ Isso não pode acontecer. Vamos fazer hoje, agora. Não podemos esperar mais. Todo mundo tem falado de gargalo, mas temos que falar de soluções.

DINHEIRO – Mas a reorganização dos aeroportos também aconteceu como reflexo de medidas tomadas após acidentes aéreos...

NEELEMAN – Por questões políticas, o Aeroporto de Congonhas foi fechado depois do acidente com o avião da TAM, em 2008. O acidente não tinha nada a ver com pista. Congonhas tem duas pistas e capacidade de ter 48 operações por hora e tem feito 30.

DINHEIRO – Se tivesse a chance de reformular os aeroportos, o que o sr. faria?

NEELEMAN – Se tivesse um conselho de administração profissionalizado e também liberdade de atuação, fora das regras da Lei 8.666, seria muito fácil. Nós temos recursos no País e temos pessoal especializado no tema pelo mundo. Chamaria profissionais no Canadá, EUA e Europa e contaria com o apoio de pessoas, por exemplo, que construíram o aeroporto de Dubai. Um grupo de especialistas desenharia um novo Aeroporto de Guarulhos e, nesse projeto, os brasileiros seriam os responsáveis pela construção. Não dá para ficar como está. O Brasil é os Estados Unidos de 30 anos atrás.

DINHEIRO – O sr. acredita que há questões políticas envolvidas nesse processo, como o temor do governo de perder o controle sobre os aeroportos?

NEELEMAN – É preciso ficar claro que o conhecimento pode vir de fora sem que seja preciso vender os nossos aeroportos. Atualmente, os aeroportos brasileiros são bem administrados. Existem muitas pessoas na Infraero que conhecem bem o assunto tecnicamente. A questão é agilidade na tomada de decisões.

DINHEIRO – Qual o impacto da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016 para o setor no Brasil?

NEELEMAN – Fiquei animado, mas não pelas três a quatro semanas que as pessoas estarão aqui para a Copa. Estou animado porque o foco do mundo será o Brasil. Se não fizermos direito agora, vamos perder uma imensa oportunidade. Temos que aproveitar a chance para fazer aeroportos muito melhores e não construir só para a Copa. Mas algo que dure décadas. E isso é fácil demais. Temos pessoal, temos dinheiro, só falta querer fazer.

DINHEIRO – Como tem sido o desempenho da Azul após o primeiro ano de atuação?

NEELEMAN – O ano de 2009 foi espetacular para nós se lembrarmos das dificuldades pelas quais passamos. Pelas nossas contas, transportamos 2,2 milhões de pessoas. É um recorde para qualquer empresa aérea. Há um cálculo sendo feito de que o Brasil deve ter de três a quatro vezes mais pessoas viajando de avião no curto prazo, dentro de alguns anos. É um número gigantesco.

DINHEIRO – Quais as suas expectativas para este ano?

NEELEMAN – Acreditamos que o ano de 2010 será ótimo. Atualmente, temos 20 rotas e 14 delas não têm voos diretos de nenhum concorrente. Nossa participação de mercado nessas rotas chega a 70%. Mas o número de voos diretos precisa aumentar mais. Vamos achar novas cidades onde só existam voos com conexão para nos estabelecer. Fizemos um estudo dois meses atrás para analisar todas as rotas no Brasil e para descobrir o número de aviões que seriam necessários para atender o setor por meio de voos diretos. Constatamos que precisaríamos de 94 aeronaves para explorar o potencial do mercado aéreo no País. Temos apenas 15 aviões, ou seja, ainda há muito por fazer.

DINHEIRO – E por que vocês podem ser beneficiados pela expansão do mercado?

NEELEMAN – Entre as 25 maiores cidades do Brasil, apenas 30% têm voos diretos, sem conexão. Ou seja, 70% dos municípios são atendidos em voos com conexão. Nossos aviões são menores e podem atender esse segmento. Para 2010, esperamos um crescimento no faturamento de mais de 100% em relação a 2009. E deveremos fazer a virada neste ano, passando a operar no azul já em 2010. Hoje temos 5% de mercado e a WebJet, cerca de 6%, 6,5%. Acredito que poderemos ocupar a terceira colocação neste ano, mas não estou olhando para isso. Quero criar uma companhia para durar. Estamos no caminho certo. É a quarta vez que faço isso na minha vida (Neeleman fundou quatro companhias aéreas), portanto, acho que sei o que estou fazendo (risos). ‘Conhece o livro Outliers (Outliers: The Story of Success, de Malcolm Gladwel)?’ Ele diz que é preciso ter dez mil horas de prática em algo na vida para ser considerado um expert. Já bati esse número umas cinco vezes.

DINHEIRO – Então o sr. é o quê?

NEELEMAN – Ah, eu sou mestre (mais risos).

DINHEIRO – Como a Azul pretende crescer entre as classes C e D?

NEELEMAN – Todas são importantes para nós. No caso das classes A e B, quero que viajem mais. Em vez de viajar uma vez por trimestre, que viajem uma vez por semana. Se o empresário está fazendo negócios em Fortaleza, abra uma filial lá ou visite seu fornecedor uma vez por semana. E queremos que o passageiro que mora na Bahia e não vê a família há anos consiga vê-la agora. Além disso, nos preocupamos com aqueles sem cartão de crédito. Hoje, temos passagens R$ 100 abaixo do valor cobrado pelas empresas de ônibus. Queremos manter esses preços competitivos e criar novas formas para que o cliente pague a nossa passagem sem problemas. Existem concorrentes vendendo passagens parceladas com taxas de juros de 6% a 7% ao mês. Isso não dá.

DINHEIRO – De que forma, então, a Azul pode se diferenciar?

NEELEMAN – Quero que as pessoas que comprem uma passagem para o Nordeste paguem uma parcela cerca de 30 dias ou 60 dias antes da viagem. Pode ser 20% do valor do tíquete, por exemplo. No dia da viagem, pague cerca de 50% do montante e, depois da viagem, o restante. Isso não pesa tanto e não serão cobrados juros. Agora estamos lançando uma ação para pagamento de passagens por meio de cheques pré-datados e via boleto bancário. Eu quero que ele pague R$ 600 em algumas parcelas em vez de pagar R$ 30 reais mensais para o resto da vida.

DINHEIRO – O sr. acredita que as companhias brasileiras são pouco inovadoras?

NEELEMAN – Sempre, quando falta concorrência, os passageiros pagam mais, as empresas ganham mais e a eficiência cai. No Brasil, dá para criar muito mais. Nós queremos criar um mercado três a quatro vezes maior do que o atual.

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Fonte: REVISTA ISTO É DINHEIRO, via NOTIMP





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